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Nem todo ressecamento é o fim.

1 de jul.
2 min de leitura

Há uma imagem que não sai da minha cabeça nos últimos dias.

A de uma floresta no outono.

Não aquela floresta exuberante dos cartões-postais, coberta por folhas verdes e atravessada por raios de sol. Penso naquela outra, silenciosa. O chão coberto por folhas que já cumpriram seu ciclo, os galhos despidos, os tons terrosos ocupando o lugar do verde.

Se alguém passasse por ela sem conhecer a natureza, talvez concluísse que a floresta está morrendo. Mas ela não está.

floresta com folhas caindo no outono

Ela apenas deixou de parecer viva do jeito que costumávamos reconhecer a vida.

Foi impossível não perceber o quanto fazemos isso conosco.

Quantas vezes olhamos para dentro e, porque já não sentimos o mesmo entusiasmo, a mesma leveza ou a mesma disposição de antes, decretamos que há algo errado? Como se a ausência do florescimento fosse sinônimo de fracasso. E, não é. Penso que existem fases em que a vida precisa abandonar o espetáculo para se dedicar ao invisível.


mulher andando na floresta no outono

Tenho a impressão de que fomos ensinadas a confiar apenas no que floresce. Celebramos as colheitas, os recomeços, as conquistas, os dias luminosos. Mas quase ninguém nos ensina a habitar os períodos em que tudo parece recolher-se para dentro. E, ainda assim, são justamente essas fases que remodelam quem somos.


Há um tipo de cansaço que não melhora com um fim de semana de descanso, perguntas que nenhuma viagem responde, vazios que não aceitam ser preenchidos com distrações...

Durante muito tempo, quando esses incômodos apareciam, eu procurava uma saída rápida. Mantinha a agenda cheia, encontrava novos objetivos, inventava alguma urgência. Era uma forma singela de não permanecer tempo suficiente comigo. Até perceber que as estações não aceitam atalhos.


A natureza não negocia seus ciclos, a árvore não discute com o inverno e a semente não tenta romper a terra antes da hora. Só nós insistimos em exigir flores enquanto as raízes ainda estão ocupadas aprendendo um novo jeito de existir.


Sinto que é por isso que tantas mulheres se sentem inadequadas quando atravessam períodos de recolhimento. Acham que perderam algo essencial, quando, na verdade, estão reorganizando territórios que ninguém consegue enxergar.


Existe uma sabedoria imensa em deixar certas folhas caírem. Nem toda perda representa ausência, nem toda pausa significa estagnação. Às vezes, a vida apenas está economizando energia para algo que ainda não chegou.


folha de outono em formato de mulher dançando

Hoje, quando percebo meus próprios outonos, já não tenho tanta pressa de escapar deles.

Ainda existem dias em que sinto saudade da minha floresta coberta de verde. Dias em que gostaria de acordar pronta, inteira, sem tantas perguntas. Mas aprendi a desconfiar da necessidade constante de estar bem.


A natureza nunca teve essa expectativa sobre si. Ela apenas vive cada estação por completo.

Não tente encontrar uma primavera permanente. Busque desenvolver a delicadeza de reconhecer beleza até mesmo quando as folhas caem. Porque há vida acontecendo muito antes das primeiras flores aparecerem. E, quase sempre, é no silêncio das raízes que os recomeços começam a ser escritos.


Era um insight do meu querido diário, mas senti de compartilhar com vocês, vai que te ajude de alguma forma.

Fico por aqui e até mais.

Com carinho, Rafa.

 
 
 

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