As bruxas nunca morreram, elas apenas mudaram de pele.
- Rafaela Lima
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- 31 de out. de 2025
- 2 min de leitura

Entre os séculos XV e XVIII, na Europa e depois nas Américas, milhares de mulheres foram perseguidas, torturadas e queimadas vivas sob a acusação de bruxaria. Ser mulher era, por si só, um risco. Mas o que quase nunca se fala é quem eram essas mulheres, por que realmente elas foram condenadas.
Eram mulheres que curavam com ervas, honravam a Lua, escutavam a natureza e entendiam os ciclos do corpo. E o que realmente queimava nas fogueiras não era a magia delas, mas o medo de um mundo controlado por mulheres livres.
As bruxas eram parteiras, curandeiras, herbalistas, guardiãs do saber feminino. Elas conheciam o poder do sangue, do ventre, da terra e do silêncio. E isso, essa sabedoria instintiva e selvagem, era perigosa demais para um sistema que queria o feminino submisso.
Elas tinham saberes antigos, transmitidos oralmente por gerações, muito antes da medicina ser institucionalizada e controlada por homens.
Essas mulheres representavam autonomia. E autonomia feminina, naquela época, era vista como ameaça.
A caça às bruxas não foi apenas um delírio religioso, foi também um projeto político e econômico.
Com o surgimento do capitalismo e da Igreja como força de controle, o corpo da mulher precisava ser domado. O saber popular, espiritual e natural, precisava ser substituído pelo saber “científico”, masculino e hierárquico.
Essa é uma ferida que ainda pulsa. Porque, de certa forma, "a fogueira nunca se apagou".
Hoje, as chamas mudaram de forma, queimam em comentários que deslegitimam, em piadas que ridicularizam, em olhares que julgam quando uma mulher se mostra espiritual, intuitiva ou simplesmente livre.
Ser mulher que fala de ciclos, de energia, de cura, de conexão com a natureza ainda desperta incômodo social.
E é por isso que, se eu vivesse naquela época, provavelmente também seria queimada.
Eu seria queimada por falar de Ayurveda, por ensinar mulheres a ouvirem seus corpos, por lembrar que existe sabedoria no sangue menstrual e equilíbrio na natureza.
Seria acusada de “mística”, “bruxa”, “estranha” — simplesmente por tocar em saberes que não cabem na lógica da pressa e do controle.
Mas hoje, eu escolho reivindicar essa palavra. Ser bruxa, para mim, é ser mulher inteira — corpo, mente, alma e natureza. É honrar o que nos foi tirado, curar o que queimaram e reacender o fogo da consciência. É olhar para essa história com respeito e dizer: “Não mais.”
Porque ser bruxa hoje é um ato de memória e resistência. É lembrar das mulheres que vieram antes de nós — e garantir que suas vozes nunca mais sejam silenciadas, ensinar para as meninas a confiarem na intuição, a se conectarem com a terra, a se apoiarem umas nas outras e transformar o fogo que um dia destruiu, em fogo que ilumina.
As bruxas não morreram. Elas continuam vivendo dentro de cada mulher que ousa ser livre, sábia e verdadeira.
com carinho,
Rafa Lima



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